História da Arquidiocese de Luanda

O que é uma Diocese?


A Diocese é a porção do povo de Deus que é confiada ao Bispo para ser apascentada com a cooperação do presbitério, de tal modo que, aderindo ao seu pastor e por este congregada no Espírito Santo, mediante o Evangelho e a Eucaristia, constitua a Igreja particular, onde verdadeiramente se encontra e actua a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica. (Cân. 369)

Informação geral

Tipo de Jurisdição: Arquidiocese
Elevada: 4 de Setembro de 1940
Metropolitana
Rito: Latino (ou Romano)
País: Angola
Quilómetros quadrados: 342 (132 milhas quadradas)

Detalhes históricos


Diocese de Angola e Congo
Nome Latino: Angolensis et congensis
Eregida: 20 de Maio 1596
Metropolita: Patriarcado de Lisboa
País: Angola

Dioceses sufragâneas

Cabinda
Caxito
Mbanza Congo
São Tomé
Sumbe
Viana

Surgimento das primeiras comunidades cristãs
Primeiro Período: Diocese de Angola e Congo

Desde os primeiros contactos, ainda no Séc. XV, que a presença europeia no continente africano se fez acompanhar por campanhas missionárias. Por outro lado, em virtude do Padroado os reis de Portugal tinham recebido do Papa o direito de evangelização das terras e povos da conquista. Por isso não estranha que quando em 1575 Paulo Dias de Novais chegou à ilha de Luanda, conhecida (no tempo por pirilampo das cabras), já lá tivesse encontrado uma capela construída pelos portugueses em honra de Nossa Senhora da Conceição e havia alguns africanos baptizados, segundo se pode deduzir das cartas dos primeiros jesuítas.
Com Paulo Dias de Novais desembarcam quatro missionários: Padre Francisco de Gouveia, Padre Agostinho de Lacerda, Irmão António Mendes, e Irmão Manuel Pinto, todos jesuítas, que logo procuram contacto com a população. No ano seguinte, 1576, Paulo Dias de Novais abandona a ilha e fixa-se no continente, no morro de S. Paulo. Os Jesuítas que o acompanharam, chegados à terra firme, dedicaram-se a instrução das populações, montam sessões de catequese, exploram o interior e procuram contactos com os chefes locais, cujo apoio era condição imprescindível para o estabelecimento de núcleos religiosos. Três anos depois haviam já baptizado 87 pessoas entre as quais filhos das famílias mais influentes na terra. Em 1584 iniciam diligências para a construção de uma igreja e de um colégio, que estavam prontos, ou quase prontos, em 1623, na praça que então se chamava “da Feira”, hoje Largo do Palácio. Foram os primeiros a manter escolas de primeiras letras e talvez até outras de estudos mais adiantados, mesmo que o seu funcionamento fosse irregular.
Por sua vez, os padres que acompanhavam as tropas ao interior, iam  evangelizando como podiam em tão críticas condições, em tão problemáticas circunstâncias.
Os resultados deste primeiro anúncio do Evangelho não se fizeram esperar. Em 1593 podia-se já contar com uma comunidade bem numerosa com mais de oito mil baptizados. Segundo correspondência de Paulo Dias de Novais, os cristãos da terra cantavam já, com grande perfeição, algumas músicas religiosas bastante difíceis – a “Missa”, de Morales, o “Pange Lingua”, de Guerrero, e o “Motete de Santo André”. Aos poucos vinha à luz uma comunidade cristã com seus lugares de culto, pequenas capelas de pedra e cal ou de palha, com as suas devoções populares, catequeses e aulas de ler e contar.
Podemos considerar estes feitos como os inícios da evangelização de Luanda e suas gentes.
Em 1605 chegaram a esta cidade os religiosos Franciscanos da Terceira Ordem da Penitência que construíram o convento de S. José que mais tarde será demolido para ceder espaço ao primeiro grande hospital da cidade, o Maria Pia.
No seu relatório de Novembro de 1619 o frei franciscano Manuel Baptista informava que, na ocasião, em Luanda havia um vigário geral, um coadjutor, padres diocesanos e, para além dos jesuítas, um convento com quatro ou cinco franciscanos.
A assistência religiosa da população neste período é assegurada pelos Jesuítas, franciscanos da ordem terceira e sacerdotes diocesanos que contavam com a passagem de tempos em tempos do bispo que tinha a sua sede em M’Banza Congo. Pois, era então comum o bispo oficiar na Igreja da Conceição, a principal da cidade, e prosseguir viagem para Mbanza- Congo.
Nos arredores de Luanda com uma outra diferença a situação era a mesma. D. Frei Manuel Baptista (1609 – 1620), que foi o primeiro prelado que visitou as paróquias do interior de Luanda, ao tempo três – Massangano, Muxima e Cambambe, nas crónicas desta visita destaca a sumptuosa Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Cambambe e a presença de indígenas na celebração que abarrotaram completamente o templo.
Arquidiocese de Luanda funde-se com a história dos primeiros séculos da evangelização de Angola, mais concretamente dos reinos do Congo, Ndongo e Matamba.
A Arquidiocese de Luanda é herdeira da antiga Diocese do Congo, com sede na cidade de São Salvador, actual MBanza Congo, criada a 20 de Maio de 1596 por bula de Clemente VIII, que mais tarde passou a chamar-se Diocese de Angola e Congo.
b) A plantatio ecclesiae
Com a chegada em 1627 de D. Francisco do Soveral, quinto bispo da diocese do Congo e Angola, que decide residir em Luanda devido à instabilidade política na corte do Congo, o ambiente muda e Luanda que já se afirmava como centro político administrativo de Angola, com a presença estável e regular do bispo, tornou-se de facto a sede do bispado, agora designado de Angola e Congo, e centro impulsionador de toda actividade eclesiástica do território.
Desde as primeiras horas, D. Francisco do Soveral cuidou de dar o seu melhor na organização da grei. Antevia-se pelo entusiasmo e entrega do pastor à causa do Evangelho um período promissor na evangelização destas terras. Era patente aos olhos de todos o zelo e dinamismo com que o bispo assumiu o seu pastoreio: as visitas frequentes as comunidades, a organização e acampamento do reduzido clero, a restauração das poucas igrejas e o interesse pela população nativa. Ainda, o dedicado bispo, para garantir um melhor acompanhamento e assistência aos fiéis preocupou-se com a formação do clero local, tendo ordenado muito padres que distribuiu pelas paroquias então existentes.
Infelizmente o que parecia ser o início de uma nova era na evangelização destas terras foi interrompido com a ocupação de Luanda e outros pontos da costa de Angola pelos holandeses e consequente retirada do bispo para Massangano, onde viria a falecer em 1642. Ainda lhe fora oferecida pelos holandeses a possibilidade de retirada para o Brasil, mas tão afeiçoado que estava a esta terra e suas gentes, preferiu não abandonar o rebanho. Os holandeses, que tomaram a cidade, vandalizaram as principais estruturas eclesiásticas e profanaram os templos da cidade. Uma parte do clero existente retira-se, uns para o Brasil e outros para regiões do interior. A situação religiosa que já não era florescente, deteriorou-se rapidamente tendo como consequências a danificação de algumas igrejas, a diminuição do ímpeto missionário e a degradação dos costumes na cidade.
A retoma missionária virá a verificar-se gradualmente após a restauração de Angola. Imediatamente a seguir à expulsão dos holandeses de Angola, a pedido do governador de Angola, Salvador Correia de Sá e Benevides, chegam a Luanda os capuchinhos (1648), já presentes no Reino do Congo. Chegaram dois frades que se instalaram inicialmente numa casa junto do Hospital da Misericórdia antes de se transferirem para uma residência própria junto à Igreja de S. António, na cidade alta.
Alguns anos mais tarde, 1654, dá-se a transferência de São Salvador para Luanda da sede da Prefeitura Apostólica do Congo, criada a 25 de Junho de 1640 e confiada aos capuchinhos. O que contribui em muito para a expansão da actividade missionária em Luanda e arredores Em 1659 juntam-se aos filhos de S. Francisco os Carmelitas Descalços de Santa Teresa. Foram hospedados em algumas casas ao lado do convento de S. José, em Dezembro de 1659 mudaram-se para instalações próprias nos arredores dos limites da cidade de então, nas Ingombotas, onde foram adquiridas duas casas, para servirem como convento.
Em Janeiro de 1660, começaram os trabalhos para a fundação do convento de Santa Teresa e igreja (Carmo) no mesmo local, que concluíram em 1689. Carmo torna-se o centro irradiador da actividade missionária dos carmelitas para os povoados do interior do N’dongo, chegando mesmo a criar hospícios (centros catequéticos maiores – capelas) em Kifangondo e Calumbo.
Durante este longo período que vai de 1640 a 1668, a diocese foi governada por sucessivos vigários capitulares. Os bispos que se seguiram com não poucas dificuldades foram assegurando a continuidade do esforço missionário, erguendo igrejas, criando paróquias, desenvolvendo obras sociais e promovendo iniciativas para a formação local do clero.
Com o crescimento da cidade e o aumento de baptismos entre a população nativa foram sendo erguidas outras igrejas na cidade e redondezas assistidas pelo clero diocesano e membros de ordens religiosas, capuchinhos, carmelitas, franciscanos e jesuítas. Promovem-se missões nas sanzalas de Luanda, agrupadas em núcleos e criam-se capelas no interior.
É desta época o Convento de São José em 1604, demolido para dar lugar ao hospital Maria Pia, as Igrejas dos Remédios em 1605, a Igreja de Jesus em 1636, da Misericórdia em 1626, do Carmo em 1689, da Nossa Senhora da Conceição em 1668, do Corpo Santo em 1650, de São João em 1654, de Nossa Senhora da Nazaré em 1664, de Nossa Senhora do Cabo 1679, a Missão de João Baptista da Cazanga em 1668, na ilha do mesmo nome. No interior estavam erguidas igrejas na Muxima, Massangano e Calumbo no Séc XVI; Barra do Bengo (N. Senhora dos Anjos), Golungo Alto (S. João de Tala-Matumbo) e Ambaca no Séc XVII. A excepção das Igrejas do Corpo Santo e da Ermida de Nossa Senhora dos Anjos eram todas paróquias com párocos residentes.
O clero era recrutado em Portugal e alguns seminaristas já adiantados vindos de Portugal eram depois ordenados em Luanda. Não havia seminário em Angola. Os candidatos naturais de Angola eram formados no colégio dos Jesuítas ou recebiam aulas para o efeito em outros locais como o convento dos carmelitas ou dos capuchinhos. Em alguns casos o próprio bispo assumia o ónus do maior número de disciplinas, como no tempo do bispo frei João Damasceno Póvoas que ensinou filosofia, Sagrada Escritura, Dogma e Patrística.
Outros candidatos às ordens sacras eram enviados para conventos em Portugal e Brasil. Para o clero funcionavam ainda as aulas de moral e as “conferências” com carácter obrigatório.
É neste contexto que em 1716 realiza-se a transferência da Sede do bispado de M’Banza Congo para Luanda que ganhava cada vez mais importância e prestígio no território. Consequentemente, Luanda que até aí estava ligada à Salvador da Baía passa a pertencer à província eclesiástica de Lisboa.
Como se pode notar, no arco de um século são lançadas as bases e erguidas as estruturas que servirão de suporte a vida da Igreja em Luanda. Aquilo que é hoje o centro da cidade com o Paço episcopal, as Igrejas da baixa e outras obras hoje extintas surge neste período áureo. Tal era o crescimento que em finais do século XVI já se dizia haver em Luanda e arredores cerca de vinte mil cristãos. Este frondoso desenvolvimento não terá sequência no século sucessivo. Regista-se um afrouxamento do que era característica e paixão dos trabalhadores das primeiras horas.

SEGUNDO PERÍODO
A Missão e o desalento


No século XVIII é assiste-se o esmorecer da paixão missionária. Aos poucos a presença missionária em Luanda diminuiu e caiu em ruína. Uma série de factores contribuíram para fazer deste século um período de decadência missionária que se estenderá até ao segundo quartel do Séc. XIX.
A corte em Lisboa, que superintendia a actividade missionaria, assolada por uma crise económica, está mais preocupada com a extracção do ouro e exploração de diamantes no Brasil do que com a colónia de Angola. Diminuíram as remessas para as missões e bispados em África. Acrescente-se a isto as ideias liberais de Marques de Pombal, a influência do Iluminismo francês,   os desentendimentos entre Lisboa e Roma  a culminar com sucessivos cortes de Relações Diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé (1728/1732 – 1760/1770). Por outro lado, há muito que Luanda era governada pelos influentes senhores da colónia portuguesa do Brasil, os donos do açúcar, do tabaco e minerais.
Durante este século três bispos de Angola são transferidos para importantes sedes no Brasil: Rio de Janeiro, S. Salvador da Baia e S. Luís do Maranhão. Era a febre brasileira, todos olhavam para Brasil e Luanda ficou reduzida ao que sempre foi, um porto de escravos.
Entre 1731 e 1740 o estado das missões era desanimador. Notava-se tão grande falta de agentes pastoral que causava apreensões. O pessoal em serviço carecia de qualidades. O ideal religioso havia sido abafado por interesses imediatos.
­Sob o aspecto eclesiástico, atravessa-se rotunda decadência.
 A expulsão dos jesuítas em 1760 apressará ainda mais o processo de abandono dos antigos postos missionários.
Ao mesmo tempo, as casas religiosas de Angola não podiam deixar de reflectir o processo de decomposição interna que minava as ordens na Europa. A tibieza e o desinteresse que encontramos em Angola era o reflexo e, possivelmente, o fruto do que se estendia pelo reino. A acção missionária ficou reduzida a algumas missões arruinadas. Poucos sacerdotes ficaram para enfrentar a desgraça. Não havia espírito missionário propriamente dito. Não existiam “missões”, mas sim paróquias, à moda europeia. Os religiosos então existentes limitavam-se a alguns carmelitas descalços e franciscanos da primeira e terceira regras.
O clero diocesano, por seu lado, também não era numeroso. Apenas o cabido da Sé encontrava-se relativamente completo, tinha quinze membros. Fora de Luanda, havia apenas assistência religiosa em algumas localidades. As inúmeras igrejas que a devoção tinha construído no passado, praticamente em toda a parte, encontravam-se abandonadas à invasão do capim e à inclemência do tempo.
Numa extensa carta datada do dia 22 de Junho de 1779, o ministro Martinho de Mello e Castro informa ao bispo de Angola, D. Luís da Anunciação, as providências tomadas pelo Palácio “diante do lastimável estado dos assuntos religiosos” no bispado angolano. Como resposta, no dia 4 de Dezembro de 1779, chegou a Luanda uma missão composta por dezassete padres de diversas congregações religiosas e um sacerdote secular. Pretendia-se dar novo impulso à tarefa evangelizadora. Vai-se procurando responder como se pode ao afrouxamento do ímpeto missionário.
Entretanto, em 1833, quando o governo de Lisboa ordena a supressão de todas as ordens religiosas, então atingem-se os níveis mais baixos de evangelização do território. O clero da diocese ficou reduzido a vinte e seis sacerdotes seculares – entre os quais vinte e um angolanos – que baixavam a dezoito em 1840 e a cinco sacerdotes, todos africanos, em 1853. D. José Moreira dos Reis, bispo entre 1849 -1857,  chegará a afirmar: “Das florescentes Missões  de Angola e Congo só  resta memória”.
Porém, apesar da pouca assistência, da falta de clero e de recursos para restaurar as antigas igrejas,
abundavam os “cristãos” tradicionais, perseverantes, autênticos fiéis, que continuavam com as suas associações e práticas devocionais.
Foi graças a muitas destas associações que se manteve viva a chama da fé sobretudo nas comunidades do interior que passaram anos a fio sem a visita de missionários.
 
 Homens e mulheres leigos asseguravam a continuidade da vida cristã: instruíam as pessoas na fé, dirigiam a oração da comunidade, conservavam as alfaias e os livros e mantinham como podiam as igrejas “abertas ao culto”.
Os bispos, entretanto, procuravam como podiam reverter a situação recrutando pessoal em Portugal e Brasil, procurando estar mais próximos das comunidades, multiplicando as visitas pastorais e esforçando-se pela regularização da Igreja em Angola perante o Governo Português. Era o gradual assentar de um caminho que se esperava promissor de organização com mais brilho e inteligência da presença da Igreja.
É nesta época que se instala em Luanda a Missão Americana, Metodistas, liderados pelo grande bispo William Taylor.
O fim de uma etapa
Podemos considerar que a evangelização e edificação da Igreja em Luanda foi um processo que se estendeu por bem quatro séculos, desde a chegada dos primeiros missionários no segundo quartel do século XVI.
Vários factores levaram com que melhores e mais abundantes frutos não se verificassem no tempo justo. Podemos mencionar os conflitos das forças de ocupação e a população local, o envolvimento de alguns missionários no trafico de escravos, as tensões e desentendimentos com os governadores gerais, com os Pombeiros e Tangomaos e as vezes a falta de apoio e entendimento com a coroa que levou ao desânimo de alguns prelados, levando-os a resignação e regresso a Portugal.
Outro elemento de não menos relevância que contribuiu para o pouco desenvolvimento desta igreja foram os longos períodos de sede vacante, originados ora pelo ingresso tardio dos bispos, depois da tomada de posse por procuração; ora pela morte prematura de outros, como D. Pedro Sanches Farinha, falecido um mês depois da ordenação, D. Frei António do Espírito Santo, sobrevivente do naufrágio da nau em que viajava, que dois meses depois,  acabaria por falecer no convento do Carmo sem sequer ter feito a entrada solene na Sé, e de D. Manuel de Santa Rita Barros vítima da epidemia de cólera que atingiu a cidade. E casos houve em que depois da confirmação recebida da Santa Sé o bispo acabava por não tomar posse como sucedeu com D. Frei Sebastião da Anunciação Gomes de Lemos.
Portanto, apesar de ser considerável o número dos que passavam à África, a rigidez do clima e as febres tropicais iam dizimando as suas fileiras. Eram bastantes os que regressavam à Europa para descansarem e se tratarem ou dando por finda a sua participação na obra evangelizadora; outros, por sua vez, transferiam-se para o Brasil, cuja missionação prendia a atenção dos superiores das diversas ordens religiosas muito mais do que a de Angola.
Todos estes factores contribuíram para que não obstante a leva de missionários portugueses, italianos, espanhóis, franceses, brasileiros e angolanos; a presença de ordens religiosas proeminentes e pujantes na altura como os Jesuítas, Capuchinhos, Carmelitas e Franciscanos, deparemo-nos no primeiro quartel do séc. XX com uma comunidade cristã saindo de escombros. Encontramos paróquias, capelas, umas com assistência, outras sem assistência e outras em estado de ruínas e de completo abandono. Espelhavam bem o estado das almas e a cura que necessitavam. Apesar do zelo dos Vigários Gerais era necessária a presença do pastor próprio para dar continuidade e solidez a projectos iniciados, assegurar a formação e ordenação, recrutamento de novos missionários; organizar planos pastorais, criar novas paróquias e obras e garantir a instrução religiosa dos fiéis com a sapiência que lhe é própria como dom e carisma. Portanto, as prolongadas vagaturas também não ajudaram em nada. Valeu a certeza da assistência contínua do Espírito Santo.
É este o panorama com que Dom Moisés Alves de Pinho se há-de deparar quando depois de dezasseis anos de sede vacante tomará posse, como último bispo de Angola e Congo, com a tarefa explícita de operar a restauração eclesiástica de Angola a partir de Luanda.

TERCEIRO PERÍODO
A RESTAURAÇÃO


Este período é tido por alguns como o início da segunda fase da evangelização de Angola e da efectiva normalização da presença da Igreja em terras angolanas. Coincide com a chegada dos missionários do Espírito Santo em 18664 aos quais foi confiada pela Santa Sé a antiga Prefeitura do Congo, anteriormente sob a cura dos capuchinhos, e sobretudo com a nomeação de D. Moisés Alves de Pinho para bispo de Angola e Congo (1932) e mais tarde primeiro arcebispo de Luanda (1940).
A) Criação da Arquidiocese de Luanda
A Arquidiocese de Luanda foi criada no dia 4 de Setembro de 1940 pelo Papa Leão XIII, com a bula “ Sollemnibus Conventionibus”, a mesma bula que criava as dioceses de Nova Lisboa e Silva Porto. Até então o vasto território de Angola constituía uma única diocese, a diocese de Angola e Congo, com um Bispo.
Assim é suprimida em Angola a diocese de Angola e Congo e as prefeituras apostólicas do Baixo Congo e do Cubango e no seu território, que coincidia com o de Angola, erigiu-se a Arquidiocese de Luanda e as dioceses de Nova

Lisboa e Silva Porto, as quais com a antiga diocese de S. Tomé, passaram a constituir a Província Eclesiástica de Luanda.
O Papa nomeou primeiro arcebispo da arquidiocese, Dom Moisés Alves de Pinho, espiritano, na altura bispo da diocese de Angola e Congo, a quem nomeou ao mesmo tempo bispo de S. Tomé. Dom Moisés torna-se assim o último bispo de Angola e Congo e o primeiro Arcebispo de Luanda.
O território da nova Arquidiocese era quase o mesmo das actuais províncias de Cabinda, Zaire, Uije, Bengo, Malanje, Kwanza Norte, Kwanza Sul e Luanda. A população era quase totalmente católica, pois o recenseamento de 1940 regista apenas 15% de não católicos.
          Na época existiam as seguintes paróquias em Luanda:
1. Nossa Senhora da Conceição, incluindo os bairros da Samba e Prenda. Clero diocesano.
2. Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, servindo de vigarária para os bairros do Bungo e Boavista, com sede na ermida da Nazaré. Clero dio-cesano
3. Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. Clero diocesano.
4. Paróquia de Nossa Senhora do Cabo, na ilha de Luanda. Clero diocesano
5. Paróquia e missão de S. Paulo. Clero diocesano.
6. Paróquia e missão da Cazanga. Padres do Espírito Santo.
          Ainda no território hora adstrito às dioceses de Caxito e Viana, estavam:
7. Paróquia  de N.S. da Conceição da Muxima. Clero diocesano
8. Missão de S. José de Icolo e Bengo. Clero diocesano.
9.  Missão de Nambuangongo. Capuchinhos.
10. Paróquia missão de S. José no Ambriz. Clero diocesano.
11. Paróquia e missão do Dande. Capuchinhos.
D. Moisés Alves de Pinho foi o grande restaurador da Igreja em Luanda e Angola. Com a sua chegada, a Igreja Católica começa a se ramificar mais rapidamente, acompanhando o crescimento do território e do bispado como um todo.
Como nenhum outro, fundou missões, criou novas paróquias, recrutou e instalou novos institutos religiosos, tanto masculinos como femininos, teve preocupação com a formação do clero, abriu a obra do menino da rua, fundou o jornal O Apostolado, o Boletim da Diocese de Angola e Congo, depois Boletim Eclesiástico de Angola e S. Tomé, e a Rádio ECCLESIA, Emissora Católica de Angola.
Dedicou os anos à frente da arquidiocese alicerçando as estruturas pastorais e fortificando o espírito de piedade e fé dos fiéis. Não sem razão o cardeal    Nascimento cognominou-o “Moisés, o grande”. Foram trinta e quatro anos de pastoreio, de expansão, de fortalecimento que estabilizaram e normalizaram a vida da Igreja em Angola, tendo Luanda como hipocentro.
Como uma nuvem densa vem assombrar esse período, o exilio forçado da nata do clero diocesano nativo, na sequência do movimento emancipalista de 1961. Onze padres da Arquidiocese são obrigados a residir em Portugal em regime de prisão ou residência vigiada. O impacto na vida das comunidades foi imediato: o desalento dos fiéis nativos, o afrouxamento da vida apostólica, a interrupção dos esforços de inculturação da fé e o fim do protagonismo do clero nativo na vida da igreja e da sociedade luandense de então.   
Ao fechar esta breve síntese da vida igreja luandense dos primórdios ao limiar do nascimento da Angola como nação independente, não podemos ignorar o mérito de D. Manuel Nunes Gabriel pela contribuição valiosa na recolha, conservação e publicação de acervo precioso para a história eclesiástica de Angola. Podemos mesmo dizer que dentre as várias obras por si promovidas este constitui o seu maior legado.  
Com alvorecer da independência o clima político e social de Angola e o de Luanda em particular torna-se cinzento. O que não poucos temiam começa aos poucos a desenrolar-se: o abandono precipitado da administração colonial, o vazio de autoridade, o confronto entre forças políticas e o êxodo de franjas da população.
D. Manuel Nunes Gabriel, então Arcebispo de Luanda, resigna por ver chegada a hora de Angola e a vez dos Angolanos. Foi-lhe dado como Coadjutor D. Eduardo André Muaca, transferido da Sede de Malanje, que a partir do mês de Dezembro de 1976 assume o pastoreio efectivo da Arquidiocese e inaugura uma nova etapa na vida igreja em Angola.
O período depois da proclamação da Independência Nacional é caracterizado por um clima de instabilidade, de confronto ideológico e de guerra que levou à saída de grande parte dos missionários, o desânimo de outros e o abandono de várias congregações religiosas. Muitas paróquias e obras perderam a assistência regular e obras, como os Seminários, foram nacionalizadas.
Foram dias difíceis: com pessoal reduzido, privada de estruturas fundamentais, impossibilitada de recrutar no exterior mais pessoal. Açoitada pelo fluxo de refugiados vindos do interior, num território que estendia de Cabinda a toda extensão da província Cuanza Norte e actual província do Bengo, não foi fácil.
 Os poucos sacerdotes que permaneceram desdobravam-se por várias paroquias e serviços. Fazia-se o que se podia para manter viva a presença da Igreja e a chama da fé na vida dos crentes num ambiente politicamente adverso à religião, tida como “ópio do povo”.
Pacientemente foi necessário recompor tudo: organização da diocese, reabertura das casas de formação, garantir assistência às paroquiais, relançamento de alguns serviços sociais e o mais difícil –  a reconstituição do tecido psíquico e espiritual das pessoas.
Por outro lado, a igreja ganhou em coesão e comunhão. Apareceu mais vincado o sentimento de pertença e a consciência de participação na única missão. Foram protagonistas neste período D. Eduardo André Muaca e o Cardeal Alexandre do Nascimento, chamados a pastorear a grei em períodos tão conturbados da história política e social do país, com o recrutamento de novas equipas missionárias, a reorganização das paróquias, a formação do laicado e a restauração da obra dos Seminários. Ao Cardeal Nascimento deve-se em particular a promoção dos programas pró vida, a reabertura da Rádio Eclésia e a fundação da Universidade Católica. A D. Damião Franklin, quinto Arcebispo de Luanda e primeiro reitor da Universidade Católica de Angola, devemos o legado do terceiro Sínodo Arquidiocesano e a revitalização das grandes peregrinações a Muxima. Foi o primeiro bispo a organizar peregrinações diocesanas àquele santuário.

Arquidiocese de Luanda hoje
Organização Territorial e Pastoral

O território da arquidiocese de Luanda por altura da sua criação em 1940 correspondia a um terço de Angola. Com o desenrolar do tempo, do território de Luanda foram desmembradas as dioceses de Malange em 1957; Carmona, actual Uíje em 1967; Sumbe em 1975; Cabinda em 1984; N’Dalatando em 1990; Viana em 2007 e Caxito em 2007.
Luanda hoje forma Província Eclesiástica com as dioceses de Cabinda, M’Banza Congo, Caxito, Viana, Sumbe e Santo Tomé e Príncipe.
Antes da criação das províncias eclesiásticas de Saurimo e Malanje, a província eclesiástica de Luanda integrava também as dioceses do Uíje, N’Dalatando, Malange, Saurimo e Dundo.
Actualmente, a Arquidiocese de Luanda conta com mais de três milhões de católicos, e abrange os municípios de Luanda, de Talatona e parte dos municípios de Belas,  do Cazenga e Kilamba-Kiaxi.